
São curiosos os mecanismos que produzem as opiniões, mas principalmente os que geram os “fatos incontestáveis”. O atelier (desvenda?), surgiu do desejo de seus integrantes por um espaço para o desenvolvimento de propostas coletivas em arte. A sua localização privilegiada, na Travessa Venezianos, nos sugeriu a criação de alguma espécie de atividade ou evento que agregasse e/ou propusesse algo de relevante para a comunidade artística local.
A primeira idéia que nos ocorreu não foi propriamente muito original, pensamos em oferecer o espaço para exposições de arte. A constatação de que Porto Alegre não carece de bons espaços expositivos nos fez reavaliar essa proposta e investigar melhor o que havia nos impelido a querer produzir qualquer tipo de evento.
Identificamos em nós uma sensação que nomeamos de “carência cultural”. A partir desta reflexão nos fizemos uma segunda pergunta, razoavelmente longa, mas que pode ser resumida por: “Onde a corda está roída?”. Apesar da elaboração da questão tenha tomado bastante tempo a resposta ao questionamento foi bastante simples e direta. Ora, qualquer pessoa envolvida com arte na cidade sabe que o artista visual no sul do Brasil (com raríssimas exceções) desenvolve suas pesquisas sem qualquer apoio e/ou perspectiva de financiamento desta produção. Este artista na ausência e na omissão do poder público, utiliza de recursos próprios para poder continuar a produzir cultura – mesmo que aos trancos e barrancos - e freqüentemente oferece gratuitamente a comunidade o resultado de seu esforço intelectual. O mais dramático nesse fato é que, caso o artista precise utilizar algum dos equipamentos de cultura públicos (galerias, salões, etc) para essa doação, ele precisará participar de editais ou competições de seleção onde ele irá degladiar-se com outros artistas “auto financiados” pelo direito e uso de tais espaços institucionais. No caso de Porto Alegre, os editais da prefeitura não prevêem qualquer pró-labore, financiamento ou amortização dos custos de produção, ou seja, o artista precisa competir com seus iguais para doar integralmente seu trabalho. Em qualquer outro segmento da produção cultural, teatro, música, folclore, literatura, capoeira, etc, não se encontra tamanha “generosidade” por parte de seus atores.
Analisando com calma esse cenário, imaginamos que seria interessante a existência de um lugar onde o artista pudesse comercializar sua produção e com isso amortizar, mesmo que parcialmente, os custos de carregar a cultura nas costas. Elaboramos, então, um projeto de uma feira de arte contemporânea, onde o artista poderia oferecer suas obras, sem pompa ou circunstância, por preços acessíveis e diretamente a um público heterogêneo. Dois “fatos incontestáveis” minavam essa idéia:
- O artista contemporâneo não quer esse tipo de comercialização de sua obra, ele quer que sua obra faça parte do acervo de alguma galeria de arte e ter seu trabalho divulgado em salões e em exposições específicas, onde todo potencial de sua obra poderá ser explorado. Ele busca financiamento em seleções públicas, leis de incentivo ou fazem uso de recursos próprios para dar visibilidade a sua produção, a fim de torná-la objeto “desejável” para o mercado de arte.
- Não existe um público para esse tipo de arte visual “erudita”. O mercado de arte se restringe a colecionadores que procuram obras em galerias de renome, bienais, salões ou por meio de especialistas contratados.
Divergindo desta determinação do senso comum resolvemos bancar o projeto, convidamos alguns artistas e esses outros e em duas semanas se agruparam 42 artistas apoiando com seu trabalho a idéia. Para nós foi algo imprevisível e já estávamos satisfeitos com esse resultado, pois a adesão de tantas pessoas com trabalhos tão interessantes nos revelava que haveria a possibilidade de se continuar com a feira. A nossa crença era que aos poucos, na continuidade e consolidação da proposta, o público apareceria.
Mas…SURPRESA… num domingo, mesmo com decisão do Grêmio e num calor de quarenta graus a feira Desvenda ficou lotada. Um público que se apregoava não existir compareceu, feliz de ver tantos trabalhos juntos (mais de 100) e, pasmem, comprando! Alguma coisa estava errada, mas não era a feira. Estavam errados os que não acreditavam existir artistas e pessoas interessadas em promover e produzir cultura e há espaço para a produção inteligente fora do eixo rio/São Paulo.
O que esse engajamento nos revela, é que esse momento de troca e de diálogo entre os artistas e seu público, mais que uma boa idéia, é uma necessidade e é por causa disso que continuaremos oferecendo o espaço da Travessa Venezianos, número 30, como lugar para essa urgente aproximação. Dia 04 de janeiro será a próxima Desvenda.